domingo, 27 de dezembro de 2009

Fenômeno I

O suor escorreu enquanto engolia o café.

O espelho espelhou as gotas

Gotejando no deslize das curvas do corpo.

O suor escorreu nos azulejos também.

Gotejou nas fugas desnudas de outrem.

Pingou nos pisos

Brotou dos lismos:

Corpos secos sem nenhum vintém.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Vômito da Ceia

Certa madrugada servirá para pensar: Eu sou uma merda. Foda-se as madrugadas em que o orgulho de si preencheu o ego, engordou-o e depois o matou por soberba. Foda-se também todos aqueles que inventaram os pecados capitais. Invejo-os, pelo poder, mas não cobiço. Deviam ter concedido o pecado da “ignorância maquiada”.

Incompletos em sua magnitude, os “ignoradores maquiados” transgridem as leis religiosas, divinas e humanas e atuam em palcos caseiros. Casas de família ou casas de santeria ou putaria. Ignoram-te ignorando a própria dor. Fingem lhe ferir ferindo os sentimentos pregados pelo tempo. Pensam que há câmeras: Big Brother?E maquiam-se num disfarce acometido de sorrisos mentirosos. E disfarçam-se em uma maquiagem santuária.

Porque é natal. Porque é final. Porque afinal eles te perdoam mesmo se não entenderes o motivo do perdão. Eu sou uma merda. Porque eu deveria ter dito: Tu és um merda! Não. Lavei as mãos, as louças, os pratos em velocidade. Olhei, perguntei, dei tchau, desci. Chorei.

Seu merda! Merda! Merda...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Silêncio

Um dia, você abrirá as pálpebras, espreguiçará em meio a bocejos. Colocará os pés no chão e caminhará depressa até o banheiro. Mergulhará seu rosto em água, espelhar-se-á e contará, se puder, as rugas. Nesse mesme instante, calculará quantos minutos ainda faltam para a vela do jantar romântico da madrugada, apagar-se no que restará do pavio. Nesse dia, você vai comer doces e uma orelha-de-gato dormida, saborear seu café com leite e muito açúcar, do jeito que gosta, e esperará pelo ônibus 705 que leva até o Terminal PROEB. Como de costume, você cumprimentará o motorista e o cobrador, os únicos aparentemente alegres dentro da condução. Seguirá até o seu trabalho, abrirá a loja, dirá 'Bom dia' em voz clara, então, passadas três horas na loja de confecções femininas em que atua como caixa, virar-se-á para a janela e perceberá que a rua está vazia. Silêncio. Como era de se esperar de uma pessoa como você, você ficará surpreendida, e isso logo se estampará em sua face avermelhada pelo sol. Curiosa, correrá até a porta, visualizando com olhos panorâmicos, uma imensa multidão se aconchegando na beira-rio da Avenida Castelo Branco. Você não hesitará em acelerar os passos e entrar para a estatística da quantidade de pessoas reunidas para algo desconhecido. Você procurará alguma resposta através dos olhares, mas estarão todos voltados para o rio. Na fadiga, da busca sem diálogo, você indagará a um andarilho que estará ao seu lado: O que está acontecendo aqui? Ele, sem muito enfeitar a frase, falará: Uma data especialmente registrada para a morte oficial de todas as capivaras: Dia dezessete de fevereiro de dois mil e quarenta e três. Não sabias? Você perderá o fôlego e para via das dúvidas, cairá sobre o asfalto reanimando-se nos braços do seu amor, em seu apartamento. Deitará sem assistir a televisão, nem mesmo conectando a internet e verificando os e-mails coloridos de suas amigas. Dormirá para iniciar o dia dezoito de fevereiro de dois mil e quarenta e três, suculento de novidades. Você não estará feliz pelo acontecimento. Não ficará feliz com as notas dos jornais, e também não fará nada para transformar o mundo. Com o tempo, as suas rugas estarão muito mais evidentes, sua caminhada será mais lenta e os ônibus, praças e eventos lhe reservarão espaço preferencial. Num dia desses, você não abrirá as pálpebras. Não vai repetir, e também não fará nada para transformar o mundo. Com o tempo, nascerão muitas pessoas, com vidas idênticas a sua, e algumas destas notarão que há muito tempo atrás já existiam pessoas parecidas com vocês. Entre estas ainda, terão poucos que tatearão até ouvir ecos de um retorno, eterno retorno da humanidade. Silêncio.

descobrindo

Uma sala branca.
Muitas caixas branquinhas.
Parece um hospital.
Não.
O chão é cinza.
O chão é cinza e é um tipo emborrachado, quadriculado, formando um tapete.
E reflete a luz, que arde meus olhos e me cega por um minúsculo segundo.
Tantas cabeças frente a estas caixas brancas.
Todas com sua postura, olhar atento.
Parecem parte das caixas brancas.
Extensões.
Algumas se mexem mais bruscamente.
Tudo tão parecido.
O olhar catatônico, miserável, lastimável.

Um
sorriso
entre
todos,
e
todos
sorriem
no
mesmo
instante,
tantos sorrisos dissipam o um.

Já nada há de cômico.
Mas nem de sério, forte e atraente.

Caixas brancas, e músculos minuciosamente trabalhados para dada robustez.

As vozes são os dedos.
As expressões são ícones desconhecidos ao mundo de códigos:

decodificados
decompostos
decifrados


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Presságio

Era ela
frente ao espelho
dela
Era ela
frente ao escrito
dela
Eram elas
frente aos contos
delas
Contos de amor
E o torpor entre as fendas:
As pernas trêmulas
Os rostos pálidos
As bocas sequiosas
As mãos insasiáveis,
escrevem...
E amam desvairadas
Umidecendo,
Um papel molhado
Um corpo
frágil
No teu corpo
quebradiço
Presságio...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Doce deleite


Doce.
Doce de-leite..
Doce deleite...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Latifúndio

Uma agulha fere.

Salvo meus ouvidos mergulhados em ondas sonoras. Tudo inacabado.

Vidas inacabadas.

Linhas traçadas, reinventadas, tortas. Tortas, totalizando o nada.

Nem abismo para me arremessar.

Nem uma face abismada.

Nada.
Mas rabiscada estás.
Rebuscada em rascunhos reiterando o nada.
Palavras?
Nem minhas.
Nem tuas.
Mudas mudam o mundo:
Mudamos o mundano inundando
o
Imaginário gozo grafado
em linhas lunáticas
ludibriando
libidinagens
líricas.
Lívida retraio impulsos pecaminosos.
Pelos
caminhos,
Pergaminhos...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Id

O ar penetrou em ventania:

Vem vento ventilando
Ventila vozes velozes
Cala. Acalentando-me.

sábado, 7 de novembro de 2009

A miséria

No tempo remoto
Remonto o tempo:

A arte de saber
Soberba sucumbe:

em miséria:
em leito:
em morte:
da morte:

Dê-me morte
o pranto:

O desencanto
A miséria...

Faça-me morte
o verme:

[nada aqui]
A mim seria...
[apenas]
A miséria...
[somente]
A mim séria...

[eu]
A miséria...


A miséria...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Choque

Depois
que
descobri
que
existem
mais
estrelas
do
que
grãos
de
areia,
contemplo cada noite com a plenitude de um paciente terminal...

domingo, 25 de outubro de 2009

"Imorrível"

Sob a sombra espelhando
farejei a parede e engoli poeira.
Perdi os minutos,
como se fosse o último:

Que nunca o tive e ei de ter!
[Nó]

A sombra engolida pela poeira,
Um revólver sobre a cabeça.
[Só]

E termina. O fim de tudo.
[Pó]

Ouve-se ao fundo um ruído dissoluto
Nada.
O apito da fábrica no exato minuto.

domingo, 11 de outubro de 2009

Retalhos do barco

À bordo desse barco, na imensidão desse mar que mergulhei,
escrevo-te no tom mais sutil que encontrei.
Essa rima boba que deixei, é o risco de tudo que aceitei...

Estou lembrando das frases não ditas e por mim imaginadas.
Das mãos entrelaçadas, perigosas, precisas.
Dos cabelos encontrados pela sala.
Lembro-me dos beijos roubados, prolongados junto as tuas palavras.

Daqui não enxergo o chão, no qual caí quando partiste.
Agora flutuo abestalhada, abastada de dinheiro fútil.
Pouco restou da comédia romântica, salvo as atrizes,
com seus papéis de ridículas em vidas simultâneas.

Avisto o porto, preparo minhas pernas ensinando-as voar.
Um pulo só,
só no mar.

domingo, 4 de outubro de 2009

A praça I

Sentou no banco daquela praça,
cujo o balanço avisava a saída de uma criança.
Entorpecia a mente.
Era o ranger, diminuto, preciso.
Era o vento bagunçando os cabelos.
Um pensamento vago e a fumaça do cigarro.
Calada. Fria.
Calada da noite fria.
Cala-frios dominavam o corpo,
frio.

Frágil as pálpebras deslizaram, colidindo-se.

[Estrondo]

Dormiu no banco daquela praça.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Estrela

Ela viu com olhos que a noite há de sufocar
Sufoco refogado de infames palavras que contornam
a mente.

Com música entupindo as veias
Entorpecidas, entorpecente:
Calor no estômago
Gelados estão os lábios,
o ventre.

A noite germina com ela
A noite termina com ela,
Longe dela.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Pós-taça

[Acho que a lua foi por ali...

Teus passos, rasos, cravaram
Impetuosamente.

...Acho que eu também fui]

domingo, 9 de agosto de 2009

Dia XXX

Nada mais me é estranho.

Toda a estrada é sala
E os cantos, cozinha.
Tudo que é estranho:
Cozinha o canto lírico
Desmantela a poesia...

[Fragmentando códices
Gozando a letra que surgia
O impulso entorpecente
Que a palavra consumia]

Todo o asfalto é cama
E toda angústia, frívola.
Tudo que é estranho:
Frívola memória fria
Regurgita em poesia...





sábado, 8 de agosto de 2009

Às vezes...


quinta-feira, 30 de julho de 2009

À trabalho

Acho que era inverno. Era frio. Talvez fosse a madrugada ou o sonho, porque pude ver o sol, e vi ela por lá. Senti o perfume, ouvi os passos, contei os segundos para me aproximar. Ela sorriu, perguntou sobre mim, sobre minha família e amigos. Disse que estava tudo bem, como costume confortei suas indagações esperando pelo tempo. Os óculos me cegaram refletindo o sol, segurei sua mão: Suor. Acho que era primavera. Era quente. E as folhas no chão? Eram poesias, memoriais, depoimentos, diários de inocentes. Não era outono. Pouco importa a estação, estava com ela, a procura de uma estação: esperar pelo metrô e fugir. Ah! A metrópole nos espera, e lá o tempo com seu sopro a nosso favor, tanto sufoca, quanto liberta. Por que não a beijei? Ao invés de pensamentos possíveis? Acho que era inverno. Era frio. Entrei no café e busquei pelo informativo local:

- Por favor, café com leite e muito açúcar.

sábado, 25 de julho de 2009

Para uma nova despedida

Num repente caminhar saltitante, mas leve, ela farejou um ambiente já conhecido com precisão.

Tudo tão íntimo, no terceiro olhar já é estranho.

A música que ouvia em seu mp4 era a mesma que ouvia em outras despedidas.

Agora eram outras pessoas, e era outro lugar que desvendava.

A música, a mesma, porém all these places have their moments.

E um dispositivo biológico a fez continuar seus passos em câmera lenta.

A música faz sentido, principalmente em seu toque misterioso, que jorra lembranças.

There are places I remember...

E já no outro dia, no mesmo lugar, ainda desfrutava a detetive enrustida naquela mulher.

Aquele lugar estava estranho de novo. São os mesmos lugares, Though some have changed.

A mesma música para outra despedida.

Ela se imagina em uma calçada em um dia frio no meio da multidão. Só na multidão.

Porque é um corpo que se arrasta e cheira o vão deixado pelo perfume dos que partiram.

Talvez tenha sido ela que partiu: A vida, como ela era. Ela, a vida. Partiu uma maçã e comeu.

Lembra de tudo. De todos os rostos e abraços e afetos. Agora mais vivaz.

Por favor, fundo musical!

Play.

Os rostos aparecem de novo: Some are dead and some are living.

Ela não percebe que é o seu rosto que reflete na água e já lhe marca a idade.

De quem amou?

In my life i've loved them all...

Ela precisa ouvir de novo. E escreve. Escreve com as dores de quem sente o frio proposital.

Escreve para marcar um novo rosto.

Para ouvir de novo...